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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A tecnologia mórbida da alimentação.



O que comemos é o que vamos ser. O nosso organismo precisa de nutrientes para se manter saudável, mas no mundo atual, a alimentação segue o mercado: O LUCRO.

Independente do que possa ocorrer nas pessoas, com a tecnologia dos aditivos que são colocados nos alimentos, estamos na realidade, nos envenenando, muitas vezes (ou na maioria das vezes) sem saber.

A OMS informa que 2,8 milhões de pessoas morrem em consequências de doenças associadas ao sobrepeso. E outras 2,2 milhões morrem por intoxicações alimentares.

Neste artigo extraido do site Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22808), escrito por Najar Tubino, temos uma noção do que ingerimos diariamente para não somente nos alimentarmos mas, principalmete, alimentar esta lucrativa indústria:

A indústria da alimentação deverá faturar em 2014 US$5,9 trilhões, segundo estimativa da agência britânica dedicada à pesquisa sobre consumo e marcas – The Future Laboratory. O mercado global de snacks (bolinhos, biscoitos, salgadinhos) deverá movimentar US$334 bilhões. As vendas de chocolates e confeitos vão faturar US$170 bilhões. O Brasil consumiu em 2012, 11,3 bilhões de litros de coca-cola, empresa que faturou US$48,02 bilhões, e lucrou US$ 9bilhões. Na pesquisa do IBGE comparando 2002-2003 com 2008-2009, o consumo anual de arroz das famílias caiu 40,5% - de 24,5kg para 14,6kg- e o de feijão caiu 26,4% - de 12,4 para 9,1kg. Os refrigerantes do tipo cola cresceram 39,3% de 9,l litros para 12,7 litros.

No Brasil, 48,5% da população está acima do peso, são 94 milhões de pessoas. Entre as crianças de 5 a 9 anos o aumento da obesidade multiplicou por quatro nos meninos (de 4,1% para 16,6%) e por cinco entra as meninas – de 2,4% para 11,8%. Uma em cada 10 crianças abaixo dos seis anos já apresenta sobrepeso. Nos Estados Unidos 35,7% da população, ou seja, mais de 135 milhões de pessoas são obesas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) – 17% são jovens. No mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde o número já atinge 1,5 bilhão de pessoas. Na China, o índice de obesidade duplicou nos últimos 15 anos, na Índia subiu 20%. No Brasil, segundo um estudo da Universidade de Brasília, o SUS paga R$488 milhões por ano para tratar doenças ligadas ao aumento do peso.
Moderno doentio

As causas citadas para explicar esta tragédia humana estão associadas à mudança tecnológica, ao estilo de vida das metrópoles, aos hábitos sedentários, a questão prática da vida atual, não deixa tempo para cozinhar, comer em casa, entre outras tantas. É óbvio que a alimentação está no centro desse problema, que há muito tempo deixou de ter uma abordagem cultural, e precisa ser encarado como uma mudança social, política e econômica. Henry Kissinger, figura famosa na política mundial, dizia que quem domina a comida domina as pessoas. Não incluíram no pacote as doenças crônicas resultantes do tipo de comida difundida pelo mundo como algo “moderno”, como o hambúrguer e o refrigerante cola – diabetes em adultos, cardiovasculares, câncer e hipertensão, apenas para citar as campeãs nas estatísticas. A OMS informa que 2,8 milhões de pessoas morrem em consequências de doenças associadas ao sobrepeso. E outras 2,2 milhões morrem por intoxicações alimentares, resultante de contaminações de vírus, bactérias, micro-organismos patogênicos e resíduos químicos.

Neste capítulo específico a história é longa. Um dossiê da Autoridade de Segurança Alimentar e Econômica, de Portugal, usando os dados da União Europeia, contabiliza 100 mil compostos químicos usados correntemente no mundo. Na União Europeia eles registram 30 mil, produzidos a uma média de uma tonelada por ano, sendo que a metade tem potenciais efeitos adversos à saúde.

Mentira consistente. O problema é que a comida moderna, saborosa, suculenta, cheirosa vendida pela publicidade no mundo inteiro é uma mentira. Todos os aspectos citados, incluindo ainda a cor, o tempo de vida na prateleira, a viscosidade, o brilho, o sabor adocicado, ou então o salgadinho bem sequinho, todos são resultado da aplicação de uma lista quase interminável de aditivos químicos. Inclusive registrada internacionalmente por códigos numerados e divulgada pelo Codex Alimentarius, da ONU. Por exemplo, o conservante nitrito de sódio é o E-250 e o adoçante artificial acessulfamo-K é o E-950. 

Antes de avançar no assunto, um alerta da ONU sobre o uso de componentes químicos na vida moderna:

“- O sistema endócrino regula a liberação de certos hormônios que são essenciais para as funções como crescimento, metabolismo e desenvolvimento. Os CDAs, desreguladores endócrinos, podem alterar essas funções aumentando o risco de efeitos advesos à saúde. Os CDAs podem entrar no meio ambiente através de descargas industriais e urbanas, escoamento agrícola e da queima e liberação de resíduos.Alguns CDAs ocorrem naturalmente, enquanto as variedades sintéticas podem ser encontradas em agrotóxicos, produtos eletrônicos, produtos de higiene pessoal e cosméticos. Eles também podem ser encontrados como aditivos ou contaminantes em alimentos”.

Prático e baratoO problema é que a indústria se interessa por custo/benefício. Os aditivos dão consistência aos alimentos, não deixam a mostarda e a maionese virar uma gororoba, a carne e os produtos curados, como salsichas, mortadela, salames, perderam a cor vermelho-rosada. Os sorvetes não ficam com espuma, as sopas e caldos tem um cheiro maravilhoso. Fiquei enjoado de tanto ler sobre aditivos químicos nos últimos tempos. O mais impressionante, dos mais de 40 trabalhos que repassei, é a declaração da supervisora de marketing, da Química Anastácio (SP), para a revista Química e Derivados:

“- O nitrito de sódio é o principal aditivo usado em produtos cárneos, é o agente conservante de todos os produtos curados, promove a coloração vermelho-rosada nas curas e nos crus e o róseo avermelhado nos cozidos, além do sabor característico. Realmente esses produtos são considerados carcinogênicos, porém os grandes frigoríficos os utilizam pelo fato de não ter substituto no mercado. Mas devem ser usados com responsabilidade, respeitando os limites máximos de 0,015g por 100g e 0,03g por 100g, nos casos do nitrito e nitrato de sódio”, disse Alessandra Fernandes Guera.

A Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (PROTESTE) tem trabalhos que mostram a capacidade dos nitritos e nitratos de sódio de reagir com certas substâncias presentes nos alimentos, que são as aminas, e se transformam em nitrosaminas, potencialmente cancerígenas.

Danos cerebrais: uma pesquisa de Sandrine Estella Peeters, da COPPE-UFRJ aborda o tema de como os aditivos químicos afetam a saúde. Hiperatividade em crianças, citado como consequência de corantes em alimentos, além de dor de cabeça crônica. Urticária, erupção da pele, câncer em animais, além de riscos de longo prazo de causar danos cerebrais. Este é o caso do glutamato de sódio, muito conhecido nos temperos, mas é utilizado em mais de cinco mil produtos. 

Considerado como um agente capaz de produzir efeito neurotóxico. Em outra pesquisa, da Universidade Cândido Mendes, Roseane Menezes Debatin, tese de mestrado, comenta o seguinte sobre o glutamato de sódio:

“– É um sal composto de uma molécula de ácido glutâmico ligada ao sódio. Tem um sabor adocicado, é um grande estimulante do paladar, suprimindo os gostos desagradáveis, levando a uma maior consumo de produtos industrializados. Usado em caldos, biscoitos, snacks, miojos, batata frita. O ácido glutâmico está envolvido na ativação de uma série de sistemas cerebrais, concernentes à percepção sensorial, memória, habilidade motora e orientação no tempo e espaço. Existem vários trabalhos científicos comprovando a neurotoxicidade do glutamato, principalmente na região do hipotálamo e no sistema ventricular”.

Nos Estados Unidos, o glutamato foi retirado dos alimentos infantis em 1969. A Ajinomoto maior indústria do ramo- 107 fábricas em 23 países - que comercializa o produto informa que o consumo no mundo cresce 5% anualmente.

Lista interminável
Os antioxidantes, usados na conservação, interferem no metabolismo, produzem aumento de cálculos renais, ação tóxica sobre o fígado e reações alérgicas, conforme a pesquisa da COPPE. Os conservantes, como o ácido benzoico, um dos mais usados, produzem irritação da mucosa digestiva, outros produzem irritações nas células que revestem a bexiga, podendo atuar na formação de tumores vesicais. As gorduras hidrogenadas provocam o risco de doenças cardiovasculares e obesidades. E os adoçantes artificiais, substitutos do açúcar, estão relacionados com a diabete, obesidade e o aumento de triglicerídeos (gordura na corrente sanguínea). Sobre os adoçantes, o professor e doutor em ciência de alimentos da Unicamp, Edson Creddio, comenta o seguinte:

“- Os adoçantes são medicamentos que devem ser usados por pessoas com diabetes e hipoglicemia e não por todas as pessoas, inclusive crianças, como se fossem totalmente isentos de risco. Esta substância é vista pelo público leigo como panaceia passada pela mídia com a imagem que levará o usuário a ter um corpo perfeito”.

Os adoçantes artificiais mais usados são a sacarina, que é 500 vezes mais potente que o açúcar, o aspartame, como diz o professor, que é 150 a 200 vezes mais doce, além do ciclamato e o acessulfamo-k, também muito mais doce que o açúcar. Estão presentes nos refrigerantes, bebidas isotônicas, sucos preparados, e demais industrializados.

Sódio em demasia
Fiz uma relação com 14 grupos de aditivos mais usados nos alimentos consumidos atualmente. Os conservantes aumentam o prazo de validade, os estabilizantes mantêm as emulsões homogêneas vamos dizer, os corantes acentuam e intensificam a cor natural para melhorar a aparência e fazer o consumidor acreditar que está levando algo novíssimo. Os antioxidantes evitam a decomposição, os espessantes dão consistência ao alimento e os emulsificantes aumentam a viscosidade do produto. Os agentes quelantes protegem os alimentos de muitas reações enzimáticas e os flavorizantes tem o papel de realçar o odor e o sabor dos alimentos. Já os edulcorantes são usados em substituição ao açúcar e os acidulantes utilizados para acentuar o sabor azedinho do alimento. Os humectantes mantêm a umidade e a maciez, os clarificantes retiram a turbidez, os agentes de brilho mantém a aparência brilhante e os polifosfatos são usados para reter a água, no caso dos congelados, como o frango e nos produtos curados.

No Brasil, a ANVISA desde 2011 negocia com a indústria de alimentos para diminuir a quantidade de sódio dos alimentos industrializados. Não há nem meta nem prazo para chegar a um nível aceitável. Numa pesquisa realizada em 2011, com 496 produtos das regiões nordeste, sudeste e sul foram encontradas entre produtos de diferentes empresas quantidades 10 vezes maiores nos queijos tipo minas frescal, parmesão e ricota. No entanto, as menores diferenças na quantidade usada de sódio entre os mesmos produtos de diferentes empresas chegaram a 40% no caso das mortadelas, macarrão instantâneo e bebidas lácteas. O teor de sódio mais elevado foi registrado no queijo parmesão inteiro e ralado, macarrão instantâneo, mortadela, maionese e biscoito de polvilho.

Informa a ANVISA: o sódio é um constituinte do sal, equivalente a 40% da sua composição, sendo um nutriente de preocupação para a saúde pública, que está diretamente relacionado ao desenvolvimento de doenças como hipertensão, cardiovasculares e renais. Na tabela de informação nutricional dos alimentos, que deve estar no rótulo, consta a quantidade de sódio. Para ser isento não pode ter mais de 5mg por 100g de alimento. Se tiver 40mg na mesma proporção é muito baixo e 120mg é considerado baixo. Na pesquisa da ANVISA o teor médio de sódio do macarrão instantâneo foi de 1.798mg por 100g, da mortadela foi de 1.303mg por 100g e o da maionese 1.096mg por 100g.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A globalização econômica


Valérie de Campos Mello

Professora e Pesquisadora da Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro.

O outro processo de transformação que vem afetando de maneira fundamental as bases das relações internacionais é a globalização econômica acentuada neste final de século. A globalização deve ser entendida como um processo, um padrão histórico de mudança estrutural, mais do que uma transformação política e social já plenamente realizada. Ela é um fenômeno ao mesmo tempo amplo e limitado: amplo, porque ela cobre transformações políticas, econômicas, e culturais ; limitado, porque não se trata de um processo completo e terminado, e ele não afeta a todos da mesma maneira. O processo de globalização é caracterizado pela intensa mudança estrutural da economia internacional, com o peso crescente de transações e conexões organizacionais que ultrapassam a fronteira dos Estados. Os principais componentes dessa mudança são:
i) a globalização da produção e do comércio: a globalização da produção pode ser entendida como a produção de bens e serviços em mais de um país e segundo uma estratégia global de vendas voltada para o mercado mundial . O processo de reestruturação da produção começou nos anos 70, no contexto de crescente competição internacional e inovações tecnológicas, e ele foi acelerado nos anos 80 com a queda nas taxas de crescimento e a recessão que muitos países conheceram. Hoje, nota-se uma mundialização da atividade empresarial, tanto na área industrial como na área de serviços, com o papel crescente das grandes corporações transnacionais (CTNs). O número de CTNS cresceu de 3.500 em 1960 para 40.000 em 1995. 
Houve, também, uma mudança no caráter do comércio. Mais do que uma troca de produtos entre sistemas produtivos domésticos, o comércio hoje é cada vez mais um fluxo de produtos entre redes de produção que são organizadas globalmente e não nacionalmente. As mercadorias são criadas através da integração de processos de produção levados a cabo em uma multiplicidade de territórios nacionais. A inclusão ou exclusão de um território nestas redes de produção depende da decisão de agentes privados. Os Estados podem tentar tornar seus territórios mais atraentes, mas eles não podem ditar a estrutura destas redes de produção global. Hoje, uma grande parcela do comércio internacional, entre 25 e 40 %, é na verdade comércio intrafirma. Quando um bem ou serviço vai de uma a outra filial de CTN, a operação é contabilizada como comércio internacional. Na verdade, trata-se do movimento de uma economia global, na qual existem bens e serviços globais, vendidos no mundo inteiro.
ii) A globalização das finanças: os mercados financeiros globais têm desempenhado um papel importante na construção da estrutura e da dinâmica da emergente ordem político-econômica. Alguns autores acreditam que é na área financeira que a globalização tem sido mais intensa, e que esta é a grande novidade do capitalismo no final do século XX. Desenvolvimentos tecnológicos nas comunicações também ajudaram a globalizar as finanças: hoje, existem moedas globais, bancos globais, assim como um sistema de crédito global. As transações de câmbio cresceram de uma média de US$ 600 bilhões por dia no final dos anos 80 a US$ 1 trilhão por dia em 1993. O volume de transações financeiras vale 40 vezes mais do que o volume de comércio de mercadorias. As finanças se tornaram separadas da produção, e são hoje um poder independente, o que significa a preponderância de interesses financeiros imediatos sobre considerações de desenvolvimento a longo-prazo.
Os mercados financeiros estão adquirindo uma crescente autonomia em relação aos Estados: o capital move-se de um país ao outro em busca do retorno máximo, afetando a capacidade de os Estados administrarem suas economias. O poder de controle dos bancos centrais sobre o valor de suas moedas é reduzido, o que limita a eficácia das políticas monetárias e fiscais dos governos. Com os capitais especulativos, há menos controle sobre taxas de câmbio, e uma maior volatilidade cambial. Fred Block fala da "ditadura dos mercados financeiros internacionais": todo Estado que iniciar uma política julgada inapropriada será punido pela desvalorização de sua moeda e pelo acesso dificultado ao capital. Os recentes acontecimentos na bolsa de valores e seu impacto imediato no Brasil são uma boa demonstração desse fenômeno. Hoje, a globalização financeira tende a promover uma crescente "internacionalização" dos Estados. Para O'Brien, é o "fim da geografia": os movimentos de capital hoje têm uma autonomia geográfica total e não obedecem a critérios nacionais.
iii) Uma mudança no modelo de acumulação e de produção: por fim, o modelo de acumulação e produção evoluiu com a passagem ao "pós-fordismo". O modelo fordista de produção era um sistema de acumulação baseado na produção e no consumo de massa. Ele foi criado nos anos 30 nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo após a Segunda Guerra Mundial. Ele se caracterizava por uma aliança entre o Taylorismo como modo de organizar o trabalho, com uma nítida separação entre os aspectos manuais e intelectuais do trabalho, e, de outro lado, relações contratuais rígidas entre capital e trabalho – contratos de trabalho de duração indeterminada com diversas vantagens, convenções coletivas, legislação de proteção social, e outros mecanismos assegurados pelo Estado de bem-estar social. O sistema fordista foi a base do crescimento do após-guerra, garantindo ganhos de produtividade e aumento nos níveis de vida, o que por sua vez assegurava um alto patamar de consumo e estimulava o crescimento.
Este modelo foi chamado de capitalismo organizado, ou de liberalismo embebido (embedded liberalism): um sistema econômico com relativa liberdade para o capital global estava embebido em um corpo social, de instituições, normas, regulamentações, que comprometiam os Estados industrializados a insular e proteger os seus cidadãos, ao menos parcialmente, do custo de tal sistema. Como vimos, tal ideologia deve muito ao contexto histórico em que foi elaborada: a Segunda Guerra Mundial e seus efeitos devastadores levaram os governos a pensar que uma melhor proteção social de seus cidadãos seria um meio de evitar os traumas políticos das décadas anteriores, assim como de afastar a tentação comunista.
No entanto, tal modelo começa a demonstrar sinais de fraqueza no final dos anos 60, com um declínio no crescimento da produtividade e uma crise na organização do trabalho. Aparece uma contradição entre a globalização da produção e dos mercados e o caráter nacional da regulação do trabalho. Nos anos 80, os sinais de crise estavam presentes: taxas mais lentas de crescimento da produção, diminuição das taxas de produtividade e crescimento do desemprego. O modelo fordista começou a ser considerado excessivamente rígido. Com o movimento em direção a uma economia mais baseada na informação e na tecnologia de ponta, outros modos de organização do trabalho surgem. O Fordismo tende a ser substituído por modelos pós-fordistas, mais "flexíveis", ancorados em informação, serviços e alta tecnologia, com os exemplos notáveis dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
Hoje, estamos nos movendo do que autores chamam de capitalismo organizado, no qual o Estado tinha um grande papel regulador, para um regime de acumulação flexível, no qual as políticas de emprego são flexíveis e toda a ênfase é colocada na competitividade. Este atual modelo tem uma estrutura de produção que segue um modelo centro-periferia: um centro relativamente pequeno de empregados permanentes que são encarregados de tarefas como pesquisa, finanças e organização tecnológica, e uma periferia que compõe o processo de produção e se ajusta às decisões do centro, com um uso constante do trabalho temporário. Tal evolução questiona e ameaça as conquistas dos trabalhadores e as leis sociais elaboradas nos tempos do Estado de bem-estar social, colocando sérios desafios à estabilidade social.
Artigo Completo através do título
Globalização, regionalismo e ordem internacional
Revista Brasileira de Política Internacional

sexta-feira, 1 de junho de 2012

PODER DA MÍDIA: DIFERENÇAS ENTRE BRASIL E INGLATERRA


Venício Lima (*)

Ao contrário da Inglaterra, onde a denúncia sobre o News of the World se tornou pública pela ação de um veículo da grande mídia (The Guardian), aqui a primeira reação – salvo uma rede de TV (Record) e uma revista semanal (Carta Capital) – foi ignorar o envolvimento da mídia no escândalo Carlinhos Cachoeira..
(*) Publicado originalmente na revista “Teoria e Debate.”
A Inglaterra do século 17 constitui a referência moderna obrigatória para o entendimento da liberdade de expressão republicana centrada na vita activa e no autogoverno. A terra de John Milton e Tom Paine tem sido um dos palcos fundamentais do debate entre republicanos e liberais em torno da ideia de liberdade, ao mesmo tempo em que lá se constituíram modelos importantes de prestação do serviço público de radiodifusão (BBC), de regulamentação (OfCom) e de autorregulamentação (PCC) das atividades da mídia.
Por tudo isso, as revelações tornadas públicas originalmente pelo tradicional The Guardian, no início de 2011, de práticas “jornalísticas” criminosas desenvolvidas rotineiramente pelo tabloide News of the World, do grupo News Corporation, desencadearam reações imediatas por parte do governo britânico, de instituições privadas e de cidadãos.
Uma investigação já foi concluída na Comissão de Cultura, Mídia e Esporte da Câmara dos Comuns e seu relatório divulgado no último dia 30 de abril; pelo menos outras três ainda estão em andamento no âmbito da polícia (Weeting, Eldeven e Tutela); várias ações civis impetradas por cidadãos que se consideram vítimas de invasão de privacidade também estão tramitando. E o inquérito mais importante de todos, mandado instalar pelo primeiro-ministro com o objetivo de esclarecer “o papel da mídia e da polícia no escândalo de escutas telefônicas ilegais” (Inquérito Levison), em julho de 2011, prossegue interrogando, entre outros, jornalistas e empresários.
Uma das consequências mais concretas das denúncias até agora foi o anúncio da agência autorreguladora (PCC), em fevereiro passado, de que estava sendo descontinuada para dar lugar a outra, com poderes de interferência mais eficazes.
E no Brasil?
Nas últimas semanas os brasileiros estão tomando conhecimento de atividades criminosas entre grupos empresariais privados, políticos profissionais no exercício do mandato, setores da polícia e do Judiciário, além da aparente cumplicidade de importantes órgãos da mídia tradicional. A se confirmar, estaríamos diante de um gravíssimo desvirtuamento profissional e ético do papel da imprensa, colocada a serviço de interesses políticos e empresarias privados e criminosos.
Escutas telefônicas apontam para uma relação que vai muito além daquela admissível entre o jornalista e sua fonte. Há indícios não só de um comando da fonte criminosa sobre a pauta jornalística, mas, sobretudo, de uma cumplicidade em relação a objetivos empresariais e políticos.
Lá e cá
Ao contrário da Inglaterra, onde a denúncia sobre o News of the World se tornou pública pela ação de um veículo da grande mídia (The Guardian), aqui a primeira reação – salvo uma rede de TV (Record) e uma revista semanal (Carta Capital) de menor circulação – foi ignorar o envolvimento da mídia no escândalo. Num segundo momento, a solidariedade explícita e ameaçadora dos principais grupos privados de mídia com o grupo sob suspeita.
Uma CPMI foi instalada no Congresso Nacional, mas até agora não há indicação clara sobre a disposição de investigar o envolvimento de grupos de mídia com as ações criminosas.
No Brasil não há órgão de regulação ou de autorregulação da mídia, portanto, ações específicas nessas áreas não existem nem existirão.
Já o governo brasileiro tem revelado total inapetência para assumir o papel de protagonista em relação à regulação democrática do setor de mídia. Nem mesmo os princípios e normas da Constituição de 1988 foram regulamentados, e portanto, na sua maioria, não são cumpridos. Há décadas se anuncia um projeto de marco regulatório para o setor de comunicações que, até agora, não se materializou.
Ao contrário da Inglaterra, no Brasil não há compromisso histórico com a liberdade de expressão. Nosso liberalismo nunca foi democrático e prevalece uma interdição branca até mesmo do debate público das questões ligadas à regulação do setor de mídia. Recentemente, a bandeira da liberdade de expressão foi indevidamente apropriada pelos mesmos grupos que apoiaram o golpe de 1964, responsável pela censura oficial que vitimou, inclusive, seus próprios apoiadores por mais de duas décadas.
Aparentemente, todavia, temos algo em comum com a Inglaterra: graves desvios no comportamento de jornalistas e de seus patrões. Mas ainda não temos no Brasil nem os instrumentos institucionais, nem a vontade e a força políticas para enfrentar o poder desmesurado da grande mídia.
(*) Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Novo colonialismo: Investidores estrangeiros tomam conta das terras agrícolas africanas




Novo colonialismo: Investidores estrangeiros tomam conta das terras agrícolas africanas

Horand Knaup e Juliane von MittelstaedtGovernos e fundos de investimentos estão comprando terras agrícolas para cultivar na África e na Ásia - um negócio lucrativo, levando em conta o crescimento da população global e o aumento rápido dos preços dos alimentos. Mas o arriscado "Banco Imobiliário" da vida real está levando a um colonialismo moderno ao qual muitos países se submetem por necessidade.

Toda crise tem seus ganhadores. Um grupo deles está reunido na sala Stuyvesant do Marriott Hotel em Nova York. A sala de conferências, com persianas fechadas e luz reduzida, está cheia de homens de Iowa, São Paulo e Sydney - fazendeiros de milho, grandes proprietários de terras e administradores de fundos. Cada um deles pagou US$ 1.995 (cerca de R$ 3.700) para comparecer ao encontro Global AgInvesting 2009, a primeira conferência de investidores do emergente mercado mundial de terras agrícolas.

Um homem da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) faz a primeira apresentação. Linhas coloridos sobem e descem nos gráficos de sua apresentação em PowerPoint. Algumas caem à medida que o ano 2050 se aproxima. Elas representam as terras agrícolas que estão desaparecendo como resultado das mudanças climáticas, empobrecimento do solo, urbanização e escassez de água. As outras linhas, que apontam direto para cima, representam a demanda por carne e biocombustível, os preços dos alimentos e o crescimento populacional. Há um abismo cada vez maior entre esses dois conjuntos de linhas. Ele corresponde à fome.

De acordo com a maioria dos prognósticos, poderá haver 9,1 milhões de pessoas vivendo no planeta em 2050, cerca de dois bilhões a mais do que hoje. Só nos próximos 20 anos, a demanda mundial por alimentos deve aumentar 50%. "São perspectivas pessimistas", diz o homem da OCDE. Ele parece sério e até um pouco triste, enquanto descreve o futuro do mundo.

Mas para o público na sala Stuyvesant, formado principalmente por homens e algumas mulheres, tudo isso são boas notícias e o clima é animado. Como poderia ser diferente? Afinal, a fome é o negócio deles. A combinação de mais pessoas e menos terra transforma os alimentos num investimento seguro, com retornos anuais de 20% a 30%, raros no atual cenário econômico.

Eles não são especialistas de Wall Street, nem tampouco pessoas que jogam dinheiro em outros continentes como se lançassem bolas de bilhar. Pelo contrário, são investidores extremamente conservadores que compram ou arrendam terras para plantar trigo ou criar gado. A terra é escassa e cara na Europa e nos Estados Unidos. Resolver esse problema significa desenvolver novas terras, que estão disponíveis somente na África, Ásia e América do Sul. Essa combinação de fatores desencadeou um jogo de alto risco, um Banco Imobiliário da vida real, no qual fundos de investimentos, bancos e governos estão empenhados numa corrida pelo acesso às terras aráveis do mundo.

"A última fronteira, ou encontrando alfa"
Susan Payne, uma mulher ruiva de nacionalidade britânica, é a diretora-executiva do maior fundo de terras no sul da África, que atualmente inclui 150 mil hectares, principalmente na África do Sul, Zâmbia e Moçambique. Payne espera levantar meio bilhão de euros (R$ 1,33 bi) junto a investidores. Ela fala sobre lutar contra a fome, mas os títulos em sua apresentação de PowerPoint, embelezada com fotos de campos de soja ao pôr-do-sol, contam uma história diferente. Um desses títulos diz: "África - a última fronteira para encontrar alfa". A palavra "alfa" significa um investimento para o qual o retorno é maior do que o risco. A África é o continente alfa.

Isto porque a terra, que é extremamente fértil em algumas regiões, é barata no continente empobrecido. O fundo de terras de Payne paga de US$ 350 a US$ 500 (R$ 650 a R$ 930) por hectare na Zâmbia, cerca de um décimo do preço das terras na Argentina ou nos Estados Unidos. Para um pequeno fazendeiro na África, a produção média por hectare permanece inalterada há 40 anos. Com um pouco de fertilizantes e uma irrigação melhor, a produção poderia quadruplicar - assim como os lucros.

Essas são condições perfeitas para os investidores. Susan Payne vê isso dessa forma, assim como seus investidores. De fato, tem havido tanta demanda por esse tipo de investimento que Payne decidiu recentemente criar um novo sub-fundo.

Uma grande quantidade de capital está disponível atualmente. Estamos no segundo ano da crise econômica global e os investidores estão buscando investimentos fortes e seguros, e é por isso que o público do encontro em Nova York incluiu não apenas gerentes de fundos hedge e executivos da agroindústria, mas também representantes de grandes fundos de pensão e diretores financeiros de cinco universidades, incluindo Harvard.

Milhares de fundos de investimentos, de grandes a pequenos, começaram recentemente a recorrer à fórmula mais básica do mundo: as pessoas precisam comer.

A administradora de investimentos norte-americana BlackRock, por exemplo, estabeleceu um fundo de agricultura de US$ 200 milhões, e separou US$ 30 milhões para a aquisição de terras agrícolas. A Renaissance Capital, companhia de investimentos russa, adquiriu mais de 100 mil hectares na Ucrânia. O Deutsche Bank e o Goldman Sachs investiram seu dinheiro na criação de porcos e galinhas na China, investimentos que incluem os direitos legais sobre a terra.

Os alimentos são o novo petróleo. As reservas mundiais de grãos caíram para uma baixa histórica no começo de 2008, e a subsequente alta nos preços marcaram um ponto de virada, da mesma forma que a crise do petróleo fez nos anos 70. A falta de pão provocou motins em todo o mundo, e 25 países, incluindo alguns dos maiores exportadores de grãos, impuseram restrições à exportação de alimentos.

Então veio a segunda crise de 2008, a crise econômica. Dois medos - o medo da fome e do medo da incerteza - convergiram, desencadeando o que alguns já chamam de segunda geração do colonialismo.

Uma situação em que todos ganham?A diferença em relação a esse novo colonialismo é que os países estão permitindo prontamente serem conquistados. O primeiro-ministro da Etiópia disse que seu governo está "ansioso" para oferecer acesso a centenas de milhares de hectares de terras agrícolas. O ministro da agricultura da Turquia anunciou: "Escolham e peguem o que quiserem". Em meio à guerra contra o Taleban, o governo paquistanês investiu em sua autopromoção em Dubai, buscando seduzir os xeiques com redução de impostos e isenção de leis trabalhistas.

Todos esses esforços têm duas esperanças em comum. Uma é a esperança de os países pobres atingirem o desenvolvimento e a modernização em seus precários setores agrícolas. A outra é a esperança do mundo de que os investidores estrangeiros na África e na Ásia sejam capazes de produzir alimentos suficientes para um planeja que logo será povoado por 9,1 bilhões de pessoas; que eles tragam consigo todas as coisas que faltam aos países pobres, incluindo tecnologia, capital e conhecimento, sementes modernas e fertilizantes; e que esses investidores sejam capazes não só de dobrar as safras mas, em muitas partes da África, multiplicá-las por dez. Estimativas anteriores na verdade preveem um declínio na capacidade de produção de 3 a 4% em 2080, em comparação ao ano 2000.

Se os investidores tiverem sucesso, eles poderiam alcançar o que as agências de desenvolvimento não foram capazes de fazer nas últimas décadas: reduzir a fome que hoje aflige mais pessoas do que nunca, mais precisamente um bilhão em todo o mundo. Na melhor das hipóteses, esta poderia ser uma situação em que todos ganham, com lucro para os investidores e desenvolvimento para os pobres.

Não são apenas os banqueiros e especuladores, mas também os governos que estão adquirindo terras em outros países, buscando reduzir sua dependência do mercado mundial e das importações. A China abriga 20% da população mundial, mas tem apenas 9% das terras aráveis do mundo. O Japão é o maior importador de milho e a Coreia do Sul é o segundo maior. Os Estados do Golfo Pérsico importam 60% de seus alimentos, enquanto suas reservas naturais de água são suficientes para sustentar apenas mais 30 anos de agricultura.

Corrida pelas terras nos tempos modernosMas o que acontecerá num mundo globalizado quando as colônias surgirem novamente? O que acontecerá, por exemplo, se a Arábia Saudita adquirir partes da região de Punjab no Paquistão ou se os investidores russos comprarem metade da Ucrânia? E o que acontecerá quando a fome atingir esses países? Será que os estrangeiros ricos instalarão cercas elétricas em volta de suas terras e guardas armados escoltarão os carregamentos das safras para fora do país? O Paquistão já anunciou planos para enviar 100 mil membros de suas forças de segurança para proteger as terras pertencentes a estrangeiros.

Como a corrida pelas terras dos tempos modernos é muito delicada, normalmente apenas o chefe de Estado do país é que conhece seus detalhes. Em alguns casos, entretanto, governadores já leiloaram terras para quem pagasse mais, como no caso do Laos e do Camboja, onde até mesmo os governos não sabem mais quanto de seus territórios ainda lhes pertence.

Ninguém tem certeza de quanta terra está em jogo. O número citado pelo Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês) é de 30 milhões de hectares, mas sua estimativa é impossível de ser verificada. Até as organizações das Nações Unidas têm de recorrer a reportagens dos jornais, enquanto o Banco Mundial está tentando convencer os países a prestarem mais atenção às letras miúdas dos acordos.

Klaus Deininger, economista especializado em política agrária no Banco Mundial, estima que 10 a 30% das terras aráveis disponíveis estejam em risco, apesar de que apenas uma fração do número de arrendamentos e acordos de vendas tenham sido assinados. "Houve um grande salto em 2008, quando os planos e aplicações em muitos países mais do que dobraram, em alguns casos triplicaram". Em Moçambique, diz Deininger, a demanda estrangeira é mais do que o dobro da terra agrícola cultivada existente, e o governo já distribuiu quatro milhões de hectares para investidores, metade deles estrangeiros.

Os acordos mais espetaculares não estão sendo feitos por investidores privados, entretanto, mas sim pelos governos e pelos fundos e conglomerados que eles promovem.

O governo do Sudão arrendou 1,5 milhões de hectares de terras agrárias de primeira qualidade para os Estados do Golfo, Egito e Coreia do Sul por 99 anos. Paradoxalmente, o Sudão também é o maior recebedor mundial de ajuda internacional, com 5,6 milhões de seus cidadãos dependentes do envio de alimentos.

O Kuwait arrendou 130 mil hectares de campos de arroz no Camboja.

O Egito planeja plantar trigo e milho em 840 mil hectares de Uganda.

O presidente da República Democrática do Congo ofereceu o arrendamento de 10 milhões de hectares para os sul-africanos.

A Arábia Saudita é um dos maiores e mais agressivos compradores de terra. Nessa primavera, o rei compareceu a uma cerimônia em que recebeu a primeira safra de arroz para exportação produzido exclusivamente para o reino na faminta Etiópia. A Arábia Saudita gasta US$ 800 milhões (R$ 1,5 bi) por ano promovendo companhias estrangeiras que cultivam "alimentos estratégicos" como arroz, trigo, cevada e milho, que então importa. Ironicamente, o país foi o sexto maior exportador de trigo do mundo nos anos 90. Mas a água é escassa e a nação deserta planeja preservar suas reservas. Exportar alimentos também significa exportar água.

"O investidor precisa de um Estado fraco"
Os países ricos estão trocando dinheiro, petróleo e infraestrutura por comida, água e alimento para o gado. À primeira vista, isso parece apresentar uma solução para muitos problemas, diz Jean-Philippe Audinet, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Ifad). Em geral, ele está satisfeito com os investimentos agrícolas e diz que lutou por eles durante anos. "O que foi ruim foi o período em que os mercados estavam sendo inundados por alimentos baratos".

Mas muitos dos países onde a terra está sendo tomada - Cazaquistão e Paquistão, por exemplo - sofrem com escassez de água. A África sub-saariana tem reservas naturais adequadas de água, mas o único país da região que atualmente produz um excesso de alimentos é a África do Sul. A maioria dos países, por outro lado, são importadores de alimentos e, com o aumento rápido das populações, é provável que se tornem importadores ainda mais dependentes no futuro. Será que esses países poderão se tornar de fato produtores importantes de alimentos?

Audinet, o especialista do Ifad, conhece os riscos. "A forma como esses acordos estão estruturados pode prejudicar os países e os agricultores a longo prazo, roubando deles seu bem mais importante: a terra". Olivier De Schutter, relator especial da ONU para O Direito à Alimentação, alerta: "Como os países da África estão competindo por investidores, estão baixando os preços em relação uns aos outros". Alguns contratos, diz De Schutter, mal têm três páginas de extensão - para centenas de milhares de hectares de terra. Esses tipos de acordos estipulam quais produtos serão cultivados, o local, e o preço da compra ou arrendamento, mas não incluem nenhuma norma ambiental. Eles também não determinam os investimentos necessários em contrapartida nem estipulam que deverão ser criados empregos, diz De Schutter.

Alguns investidores concordam em construir escolas e pavimentar estradas, mas mesmo quando cumprem suas promessas, os benefícios para os governos anfitriões e agricultores locais têm vida curta. A longo prazo, entretanto, eles precisam sofrer as consequências da super-fertilização, desmatamento, consumo excessivo de água, redução da diversidade ecológica e perda de espécies locais. Para aumentar as safras e atingir lucros anuais de 20% ou mais, os grandes donos de terras estrangeiros precisam operar suas fazendas em escala industrial. E quando o solo começa a empobrecer depois de alguns anos, muitos investidores simplesmente mudam para outro lugar. A terra é tão barata que eles não são obrigados a valorizar práticas de agricultura sustentáveis.

Rejeitando o velho modeloPor causa dos riscos, Audinet e De Schutter, assim como a maioria dos especialistas, preferem os contratos de produção à aquisição de terras. Em outras palavras, os investidores estrangeiros fornecem a tecnologia e o capital, enquanto os fazendeiros locais, trabalhando em suas próprias terras ou em terras arrendadas, fornecem arroz ou trigo a preços fixos. Este é um modelo clássico, testado e comprovado, mas não é o que os novos investidores querem. Eles querem controlar, ter propriedade, altos lucros e, acima de tudo, segurança - objetivos raramente compatíveis com os interesses de milhares de pequenos produtores.

O Senegal decidiu a favor dos contratos de produção e contra a venda de terras em grande escala, mas isso é possível porque o país é uma democracia estável. O mesmo não pode ser dito de muitos países onde a aquisição de terras está acontecendo.

"Quando os alimentos se tornam escassos, o investidor precisa de um Estado fraco que não o obrigue a obedecer nenhuma lei", diz o empresário norte-americano Philippe Heilberg. Um Estado que permita a exportação de grãos apesar da fome em seu território, que seja consumido pela corrupção ou esteja profundamente endividado, que seja governado por uma ditadura, atormentado pela guerra civil, ou que envie milhões de trabalhadores para o exterior e precise que esses trabalhadores consigam vistos e empregos.

Heilberg descobriu um país assim: o sul do Sudão, que na verdade é uma pré-nação, autônoma mas não independente. O norte-americano de 44 anos, filho de um mercador de café e fundador da firma de investimentos Jarch Capital, agora é o maior arrendatário de terra no sul do Sudão, com 400 mil hectares de terra agrária de primeira qualidade na província de Mayom.

A simples menção das palavras sul do Sudão conjura imagens de guerra civil, refugiados e fome, e não de um lugar onde alguém consideraria plantar tomates. Mas Heilberg alardeia que seu projeto será mais benéfico para o povo do que a própria ONU, e que ele criará empregos e produzirá alimentos. E insiste que Paulino Matip, de quem ele arrendou as terras por 50 anos, não seja chamado de ditador, mas sim "ex-ditador" ou "vice-chefe do Exército". Heilberg só deixa de mencionar que os rebeldes liderados por Matip são suspeitos de terem cometido crimes de guerra.

Em vez de comprar ações, o ex-banqueiro está agora especulando sobre o futuro político do sul do Sudão, que ele insiste será um país independente em dez anos, quando as terras serão bem mais caras do que são hoje.

A aquisição de terras já está um passo à frente no oeste do Quênia, onde vive Erastas Dildo, 33, o tipo de pessoa que os investidores de Nova York provavelmente caracterizariam como um fator de risco: um pequeno agricultor que é dono de três hectares de terra. Em sua terra fértil, o milho fica verdejante e cresce até dois metros, o gado é tão gordo quanto os hipopótamos e os pés de tomate se inclinam com o peso de seus frutos. O vizinho rio Yala corre para o Lago Vitória. Há três pequenas casas de alvenaria na propriedade. Erastas colhe seu milho duas vezes por ano, e os vegetais e tomates crescem durante o ano todo. Um hectare produz 3.600 euros (quase R$ 9.600) em milho por ano, muito dinheiro para os padrões quenianos.

"Eles expulsaram 400 famílias"Mas isso tudo mudou quando Erastas foi contatado pela Dominion Farms, uma agroindústria norte-americana que estabeleceu uma colônia do delta do Yala, onde arrendou 3.600 hectares de terra por 45 anos, a um preço ridículo de US$ 12 mil por ano (R$ 22,4 mil). A Dominion, que planeja plantar arroz, vegetais e milho na terra, quer incluir os três hectares de Erastas Dildo em seu empreendimento.

Os representantes da Dominion ofereceram pagar a ele cerca de 10 centavos por metro quadrado. Erastas recusou, e agora eles estão tornando as coisas um pouco difíceis para o agricultor. Sua arma mais eficiente é uma represa construída pela companhia. Quando Erastas tentou colher seu milho, encontrou a plantação inundada. "Eles estão jogando com o nível da água para nos expulsar", disse. E quando isso não funciona, diz Erastas, a Dominion manda escavadeiras, bandidos e às vezes até a polícia.

De acordo com seu contrato, a Dominion concordou em reformar "pelo menos uma escola e um centro médico" em cada um dos distritos locais. "Em vez disso, eles expulsaram 400 famílias", diz Gondi Olima, da organização Amigos do Delta de Yala. De acordo com Olima, primeiro a Dominion criou novos empregos, uma vez que os trabalhadores eram contratados por dia para limpar o terreno com facões, mas depois ela companhia trouxe cada vez mais equipamento. "Agora eles têm tantas máquinas que os trabalhadores não são mais necessários", diz Olima.

A Dominion Farms nega as acusações dos fazendeiros e afirma que já construiu oito salas de aula, doou portões e contemplou 16 crianças com bolsas escolares, além de fornecer camas e eletricidade para uma ala de hospital.

Talvez Erastas e sua família sejam forçados a abrir caminho para o desenvolvimento em breve, como já está acontecendo em muitos lugares. O Banco Mundial estima que apenas 2 a 10% das terras da África tenham donos ou arrendatários formais, e a maioria delas fica nas cidades. Uma família pode ter morado num pedaço ocupado de terra durante décadas, mas com frequência não têm como provar que é a proprietária.

A caçada pela terra continua
Entretanto, a terra quase nunca é deixada sem uso. Os mais pobres, em particular, vivem da terra, onde coletam frutas, ervas ou madeira e alimentam seu gado. De acordo com um estudo conjunto feito por várias organizações da ONU, as tomadas de terra são normalmente justificadas com alegações de que a terra era improdutiva. Como resultado, de acordo com o relatório, as tomadas de terra têm potencial para tirar a posse dos agricultores em larga escala. Em muitos países, pode haver terra arável suficiente para todos, mas a qualidade não é uniforme - e os investidores querem a melhor terra. Essa, como de fato acontece, é a terra em que os agricultores normalmente vivem.

Como mais de 50% dos africanos são pequenos produtores, a aquisição em larga escala pode ser desastrosa para a população. Os que perdem suas terras, perdem tudo. O fato de que grandes investidores possam melhorar substancialmente as safras com sua tecnologia agrícola moderna não significa nada para os africanos que, depois de perderem suas terras e meios de sobrevivência, não conseguem comprar os novos produtos agrícolas.

O Banco Mundial e outras organizações estão desenvolvendo agora um código de conduta para os investidores. Uma declaração de intenções foi elaborada para o encontro do G-8 em L'Aquila, Itália, mas os chefes de Estado que compareceram não conseguiram concordaram em relação às normas restritivas.

E assim continua a caçada por terra. A Dominion garantiu outros 3.200 hectares, e Philippe Heilberg está em processo de arrendar mais 600 mil hectares no sul do Sudão. Em Nova York, na sala Stuyvesant, um dos palestrantes recita números para ilustrar a rapidez com que a população global está crescendo: 154 pessoas por minuto, 9.240 por hora ou 221.760 por dia. E todas elas querem comer.

Tradução: Eloise De Vylder

Revista DER SPIEGEL